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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Série sem nome


4º Capítulo

Subi no ônibus. Lotado.
Meu deus do céu, meu Jesus cristinho, o que é que esse povo está fazendo a essa hora andando de ônibus? Sério, não entendo.
Passei na roleta e fui me espremendo até o fundo do ônibus. Chegando lá, aplico minha técnica para descobrir quem vai descer em seguida, e faço plantão bem do ladinho da pessoa. Ah, vocês tem curiosidade sobre a minha técnica? Facílima de aplicar. Basta ser observador. É assim: você precisa saber os próximos lugares por onde o ônibus vai passar. Eu sei, por exemplo, que o meu ônibus vai passar por um grande shopping. Logo, fico próxima a pessoas que tem o jeito de quem vai para lá. Ou seja, fico próxima a senhorinhas, mulheres com cara de desocupadas ou meninas daquelas bem emperiquitadas, com bolsas grandes e calças jeans justas e cabelos chapados. A chance de elas descerem na parada do shopping é maior do que a do senhorzinho com boné de caminhoneiro. Não estou dizendo que o senhorzinho com boné de caminhoneiro não possa descer no shopping. É óbvio que ele pode, mas a chance é de 1%. Já a chance da menina do cabelo super liso e bolsa grande é de 99%.
Feita a avaliação, me posiciono do lado do assento onde está sentada a menina do cabelo super liso. Rá. Estou até me sentindo melhor depois de constatar o quanto sou esperta.


Oba! A próxima parada é a do shopping. Fico vibrante, aquele momento do dia se tornou minha fonte de alegria (não é patético?). Mas de qualquer maneira, logo, logo, teria o meu assento.
Começo a contagem regressiva, 5, 4, 3...  e aí me dou conta de que a mocinha do cabelo liso nem se moveu. Vamos, minha filha, você vai perder a parada, fico dizendo para ela, em pensamento. O ônibus pára, a menina do cabelo super liso nem pisca e o velhinho com boné de caminhoneiro desce.
Bom, o que eu esperava para o dia de hoje não é mesmo? 





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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Série sem nome

3º Capítulo

Desci correndo as escadas e, no hall, dei de cara com o casal Herbalife, que voltava da sua corrida matinal.
- Bom dia, gente.
- Bom dia, Luíza. Está atrasada de novo?
Eu sempre tenho a impressão de que a Maria Regina está me alfinetando.

Perdi o ônibus. Sei disso porque todo o povo que pega o mesmo ônibus que eu não estava mais lá. A parada estava vazia. Pelo menos vou pegar o ônibus mais vazio. E vou sentada, pensei.
- Ô, minha fiiilha. Se atrasou, foi?
Olhei para o lado e vi a Dona Zuleica e o Freeman, na sua coleira azul frufru com strass.
- Dona Zuleica, o que a senhora faz aqui tão cedo?
- Cedo??? São vinte para as nove! Sabe a que horas eu me levanto? Às sete, todos os dias. Inclusive aos domingos. Desde que o Oswaldo se foi, eu tenho levantado mais cedo para preparar meu suco de mamão. Ele sempre levantava mais cedo para preparar o suco para mim.
- Mas a senhora precisa tomar o suco às sete da manhã?
- É, minha filha. Talvez você não entenda o que isso significa. Você é muito nova.
Me senti constrangida. Por que eu estou questionando os hábitos de uma velhinha? Ela interrompeu meus pensamentos.
- Além do mais, o Freeman faz as suas necessidades logo que acorda. E ele acorda cedo como eu, sabe?
- Sim. E a senhora precisa levá-lo para passear também.
- Preciso. E gosto muito. Não é um sacrifício para mim.
- Sim, a senhora é como eu. Adora animais!
- Adoro! E além disso, nada melhor do que uma caminhada respirando o ar puro da manhã para ter um bom dia. Você não acha?
Eu fiquei muda, olhando pra Dona Zuleica. Caminhada? Ar puro da manhã? Faz tempo que não sei o que é isso. Eu pulo da cama diretamente para o assento do ônibus. Sempre com pressa.
- Você parece abatida, filha. Está tudo bem?
- Ah, está sim. Tudo bem.
- No meio da tarde, estarei com um bolo de laranja saindo do forno. Minha amiga, a Verinha, vai ali em casa me visitar. Quando você chegar, passe lá para comer um pedaço do bolo, está bem?
- Obrigada! Eu vou, sim. Lá vem o meu ônibus. Tchau Dona Zuleica.
- Vai com Deus, minha filha. Vamos Freeman.
- AU!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

série sem nome

2º Capítulo
Tentei tomar o café puro, mas acho tão ruim... Café sem açúcar sempre foi algo intragável para mim. Além do mais, para que eu estava procurando mais amargura? Já não bastava o que tinha me acontecido?
Então procurei e achei o açucareiro. Vazio. Ótimo! Fui olhar a despensa. Vazia. Que droga, Bola! Quando eu não tinha para quem reclamar, reclamava para o meu gato.
Já estava me conformando a tomar o café puro, num gole só, quando me ocorreu que aquela era uma boa hora para conhecer um vizinho bonitão, com aquela velha e boa desculpa do empréstimo de uma xícara de açúcar. Mas então me lembrei que, no meu andar, não existia nenhum vizinho bonitão. Para vocês saberem: em frente ao meu apartamento mora a Dona Zuleica. A Dona Zuleica é uma senhora viúva, simpática, de uns setenta anos, que tem um poodle toy branco igualmente idoso, chamado Freeman. Sim, o cão se chama Freeman. Dona Zuleica gosta de Sílvio Santos, de fazer bolo de fubá para os vizinhos e de conversar sobre amenidades e fofocas de celebridades. Ela compra a Contigo toda a semana. Ao lado da Dona Zuleica, mora o José Carlos, o Zé, um cara de uns quarenta anos, com quem eu não tenho muito contato. Mas eu sei, por exemplo, que ele é separado, trabalha no Banco do Brasil e costuma passar os finais de semana com o pestinha do Mathias, seu único filho, que deve ter uns dez anos de idade. O Zé é aquele típico cara que não chama atenção nenhuma aonde quer que vá. É um cara normal. E no apartamento ao lado do meu, mora um casal jovem e meio estranho. A Maria Regina e o Maurício. Os dois trabalham juntos, vendendo produtos da Herbalife. Ambos mantêm distância de gatos, acordam e dormem cedo todos os dias, cantam no coral da igreja, não bebem, nem fumam e praticam corrida três vezes por semana. Segundo a Maria Regina, estes são hábitos saudáveis que eu deveria seguir também.

Meaaou! Bola arranhava a minha perna pedindo seu café da manhã. Claro, monsenhor. A especialidade de hoje é: ração. Servi a tigelinha do Bola com ração sabor atum. Ele me olhou, meio indignado. Já está na hora de trocar o sabor da ração, pensei. Anotei na minha listas de compras que estava pendurada na geladeira: açúcar e ração de gato, sabor galinha. Resolvi completar a lista com outras coisas que precisava: emagrecer, comprar um ar condicionado, pagar a Renner, me sentir bonita de novo, visitar a minha mãe e, ah sim, superar o fim do meu longo relacionamento com o cretino do Roberto. O Beto... aahh. Sem choro, sem choro eu me repeti, mentalmente.
Olhei para o relógio. Já tinha passado das oito. Engoli o café puro e saí a passos largos em direção ao quarto. Desenrolei a toalha da cabeça, penteei e depois sacudi o cabelo, num estilo meio headbanger, pra soltar os fios. Odeio sair com o cabelo molhado, mas hoje não vai ter jeito. Sem inspiração nenhuma para vestimentas, enfiei uma calça jeans, uma sapatilha e uma camiseta branca. Peguei minha bolsa e saí às pressas, chutando o Bola pela segunda vez em menos de uma hora. Lá foi ele se esconder atrás do sofá. Que mania os gatos tem de ficar nos nossos pés!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Série sem nome

1º Capítulo
Segunda-feira. O despertador tocou às 07:40 da manhã. Abri os olhos e enxerguei o teto branco do meu quarto. Virei o rosto para a esquerda e fiquei observando aquela velha mancha de bolor na parede– o desenho que ela formava lembrava um coelho -, resultado de uma infiltração no apartamento de cima. Droga, pensei. No lado direito, uma faixa de luz do sol entrava pelas frestas da cortina - que eu mal tinha fechado na noite anterior - e batia diretamente no meu rosto. Ah. A luz do sol àquela hora da manhã era quase um insulto. Ela me obrigava a ver que o tempo não parava para que eu pudesse me recuperar. Você não tem direito ao botão de pause para arrumar a sua cabeça e a sua vida, ela parecia cantarolar, irônica. O seu tempo é o que você tem. E só. Suspirei concordando com ela. Abri e fechei os olhos e senti as pálpebras inchadas e doloridas, de tanto chorar madrugada a dentro. Ah. Como eu queria não levantar... 
Mas como a vida não dá moleza, respirei fundo e ergui o corpo com aquela falta de força comum dos últimos dois dias. Calcei os chinelos que estavam jogados perto da cama e fui me arrastando até o banheiro, onde pude ver no espelho o estrago que é capaz de fazer uma noite mal dormida. Meus olhos estavam tão inchados que eu mal podia mante-los abertos. Meu rosto estava pálido, tão pálido que destacava ainda mais as insistentes olheiras azuladas e a espinha de tpm que não ia embora do meu queixo.
O cabelo oleoso então, nem merecia meus comentários.
Olhei minhas mãos e descasquei o resto de esmalte que ainda restavam nas unhas. Nesse momento, minha cólica menstrual começava a dar as caras. E, só para melhorar a situação, senti aquela tontura típica de quem não dorme há tempo.
Tirei meu camisetão, meu companheiro inseparável dos últimos dias, amassei bem amassado e joguei no cesto já saturado de roupas sujas. Hoje vou lavar tudo, pensei. Assim que fiquei pelada, me olhei de perfil no espelho e acusei minha barriga de ser a causadora de todos os meus problemas. Se eu não tivesse essa barriga, tudo seria mais fácil!
 Entrei no Box. Abri a torneira e deixei escorrer a água quente pelo corpo por um, dois minutos e fiquei ali, imóvel e imersa em pensamentos. Como eu pude ser tão burra, meu deus? Como não vi as coisas que estavam escancaradas bem na frente do meu nariz?
Acordei do transe e lavei os cabelos duas vezes com xampu, pra tirar toda a oleosidade possível. A mesma regra usei para o rosto e corpo. Muito sabonete. Queria que aquela camada de óleo, que representava meus últimos dois dias, fosse embora, ralo abaixo.
Depois do banho, saí pelo corredor, enrolada na toalha, quando tropecei em algo peludo, que logo imaginei ser o meu gato, o Bola, um bichano vira-lata, de pelo amarelo, gordo e felpudo, que resgatei da rua quando era apenas um filhote, há dois anos atrás. Me estatelei no chão. Quando olhei para os meus pés, vi o gato sair em disparada e se esconder atrás do sofá. Assisti aquilo tudo e logo me veio mais um pensamento dramático: quando algo dá errado, nunca dá errado sozinho. Parece que as coisas em que você toca pegam carona na energia ruim e todas estragam ao mesmo tempo. Vai me dizer que não? Pobre Bola.
Enfiei uma camiseta limpa, enrolei a toalha no cabelo molhado e fui para a cozinha preparar um café. 
Café preto, puro e bem forte. 
Meu nome é Luiza e assim começou o meu terceiro dia de FOSSA.