domingo, 16 de novembro de 2008

Porque a gente é Lulu e (gosta de fingir que) sabe o que quer, honey.

Vinte e seis anos e uns meses. Três sobrinhos. Uma faculdade (inacabada, mas tá quase, quase). Mil amigos pra diversão garantida, alguns insuperáveis pra guardar pra sempre. Dois namoros sérios, desses de almoço de domingo. Um amor lindo e arrebatador, que depois de cinco anos terminou em junção de escovas de dente, (e CDs, DVDs, livros, manias, contas, segredos, frustrações, descobertas, alegrias, decepções) socialmente denominada "casamento". (é, eu disse terminou). Uma separação. Cem conclusões, duzentas certezas.

A gente passa por tanta coisa na vida, a gente coleciona experiências, a gente traz uma bagagem. Tudo o que a gente vive vem com a gente, por onde quer que a gente vá. No meu caso, porém, nenhuma experiência trouxe tanta... experiência. Eu sempre fui daquele tipo que se conhece, que se questiona, que se procura. Eu sempre prestei atenção. Mesmo assim, nada nunca tinha me mostrado tão claramente quem eu sou e não sou, o que eu quero e não quero, do que eu gosto e não gosto. Talvez porque estar com outra pessoa nos obrigue a ceder mais e, cedendo, a gente vê outros lados pra todas as coisas. Inclusive pra gente mesmo. A vida toda a gente é impelido a acreditar que a vida é verso de bossa nova, e que é impossível ser feliz sozinho. Será? Depois de casar e descasar, pode ter certeza: a gente fica mais exigente. Ninguém vira dono da verdade do dia pra noite, mas a gente sabe mais pelo que quer e não quer passar. A gente se previne de certas situações, a gente cria filtros, barreiras, muros. Tudo pra evitar decepção. Parece bom? Pode ser, por um tempo. Até uns meses atrás, eu pensava que esse era o caminho, a estrada de tijolos amarelos que levava à um lugar seguro e aconchegante. Conhecia alguém, saía umas vezes, e na primeira ligação acompanhada de um "onde tu tá?", eu saía correndo. Medo de que o cara fosse um ciumento controlador e quisesse tirar a minha preciosa liberdade. Se ele não gostasse de blues e filme europeu, eu nem ligava mais. Medo de que ele não acompanhasse meus gostos. Se não fosse parceiro pra jogar conversa fora bebendo cerveja num boteco cheirando a gordura, eu bloqueava no msn. Medo de que o cara fosse certinho demais. Se não soubesse falar bobagem, rir de si mesmo e de mim, eu fugia. Medo de que ele não soubesse descontrair. Assim, ia muito bem, feliz, protegida nesse meu mundinho. Até que um belo dia, me aparece um cara que era totalmente o meu oposto, e eu começo a comprovar a tese da minha grande amiga Márcia. Ele chegou de mansinho, sem muitas intenções, e foi entrando no meu mundo. E... eu me apaixonei. Perdidamente, como há muito tempo não me perdia. Ele gostava de música brega e o filme preferido era American Pie. Mas quando ele tocava aquele violão, eu o enxergava em câmera lenta e ele sempre me parecia saído de um sonho. Ele era quieto e não saía de casa nem por decreto. Mas ele tinha um cheiro tão bom que me fazia querer ficar em silêncio no sofá, mesmo numa noite quente de sexta-feira. Ele não bebia uma gota de álcool e não saía um milímetro da rotina. Mas tinha umas covinhas que me deixavam tão "alegrinha" quanto uma dúzia de long necks. Mesmo assim, ainda tinha um lado meu preso às minhas "certezas", acendendo uma luzinha vermelha que dizia "não vai dar certo". Éramos diferentes demais, e meu cérebro me dizia pra pular fora logo. Mas quem pulava era o meu coração, toda vez que eu via uma mensagem dele no celular. Com ele, justamente o contrário. O cérebro dizia "vai, cara. Ela é legal, gosta de ti, tu gosta de estar com ela". Mas o coração não pulava. Ele bem que tentou, mas o coração tem vontade própria e o dele continuava ali, paradinho. Doeu muito, dor de saudade, de perda, de rejeição. Mas talvez o que mais tenha doído seja ter quebrado as minhas próprias regras. "Viu? Eu sabia que ia dar nisso, eu avisei, bem feito!" Parecia que a minha consciência gritava isso o tempo todo. Tive raiva dessa vulnerabilidade por um bom tempo. Pensei ter esquecido tudo aquilo que eu tinha aprendido, me arrependi de ter me exposto, de ter dado meu coração daquele jeito só por causa de um cheiro bom, umas covinhas, um par de olhos castanhos e um sorriso Colgate. E frio na barriga, e coração na boca, e suspiros, e incertezas... ai, ai.

Mas passou. Passou, e deixou mais bagagem e mais descobertas. E vesti de novo aquela carapuça de proteção, e prometi que não me deixaria mais levar por essas paixonites agudas. Nunca mais ia arriscar a minha liberdade e a minha sanidade mental por alguém que não fosse "seguro" e nem me deixar afetar por rostinhos bonitos ou papos interessantes ou habilidades musicais. Porque afinal, meu bem, eu já tenho vinte e seis anos e uns meses, três sobrinhos, uma faculdade, mil amigos, dois namorados, um casamento, uma separação, cem conclusões, duzentas certezas e um pé na bunda. Sou uma mulher-bem-resolvida-que-sabe-o-que-quer, que se conhece, e que tem controle sobre suas ações e sentimentos, blá-blá-blá.

Aham, tá.
Falando nisso, Papai Noel mandou lembranças.

8 comentários:

Julia disse...

Apesar de a senhooouuuura nunca comentar os meus textos, comentarei o teu (até pq sei q tu lê e comenta comigo pessoalmente) hehehehe

Em primeiro lugar: amei, já li e re-li.
Segundo: eu já vi essa história, já postei aqui alguuuumas vezes a variação sobre esse mesmo tema, abordando outros ângulos, que tu, inclusive, sempre me dizia "sei exatamente como é, Xu".

Agora ao que interessa: tudo isso que tu viveu te fez ser melhor! Olha só a pessoa interessante que tu é! A gente pode até não ser totalmente bem-resolvida e saber com certeza o que a gente quer... mas passando por tudo isso, a gente já sabe o que NÃO quer! E isso já é um caminho...

Até aparecer outra pessoa que tem tudo o que tu NÃO quer e tu se apaixonar de novo... mas essa é a poesia da vida!

Deni! disse...

E acho que, no fundo, é tudo o que a gente quer!!
Frio na barriga, coração na boca!

Ju disse...

Eu amo teus textos, linda!
E a gente sempre se apaixona por quema gente não quer, quando a gente não quer e quando o momento não deveria permitir! Mas ai q ta a graça, não é? Imagina se fosse tudo tão óbvio, que chato?!
E aquele beijo gostoso, aquele carinho que arrepia nao é mto mais significativo do que a pessoa encaixar em certas exigências que temos?

Paula disse...

uhuuu!
Voltou, Dê!
Que saudade de ler os teus textos.

Tudo lindo, tudo verdade, tudo o máximo!

Rafa disse...

Olha só, o esquadrão completo!

Belo texto, depois comento melhor...

Mas acho que a gente não deve se privar de entrar em relacionamentos por medo de se magoar... isso é da vida, tem que viver o momento, as emoções.

A vida é tão curta.

E quem não arrisca...

paulinha disse...

Digui (=Dê) e seus textos perfeitos...AMEI!!!
Até porque já passei por experiências como essa, exatamente da mesma forma, com o mesmo início, meio e fim.
Mas nosso coracão é tão grande que nem isso nos deixa amarga.Quando a gente menos espera, sente o frio na barriga de novo e o que era trauma vira uma simples lembrança...
Beijooooooooooooooo.
(mas ainda não entendo como um guri pode te conhecer por inteiro e não ter o coração pulando desesperadamente...)

Deni! disse...

É que tu é suspeita pra falar, né Digui?! :)

guada disse...

adorei o texto dê!! me identifiquei muito com ele!
mais uma vez, tu falou tudo, flor!!!
bjo!